Estudo aponta que bactéria presente na água agrava casos de microcefalia causados pela zika


Nordeste não foi a região que teve a maioria dos casos de infecção pelo vírus da zika, mas concentrou 88,4% dos casos de mal formação de cérebro de bebês. Cientistas estudam por que NE foi região com mais casos de microcefalia associados a zika O vírus da zika atingiu 144 mil pessoas em todo o Brasil, incluindo 12 mil mulheres grávidas. Com o tempo, pesquisadores provaram que a doença também provocou mais de 3 mil casos de mal formação em bebês, a microcefalia. Um estudo realizado no interior de Pernambuco e no Rio de Janeiro apontam uma possível relação entre os casos de microcefalia associados ao vírus e toxinas presentes na água. Ingrid Adrielly de Melo é mãe da pequena Emmannuelly, de três anos. A menina foi afetada pela zika que a mãe teve durante a gravidez. "Ela nã fala e não anda. O atraso dela é completamente motor e cognitivo", afirmou a mãe. O Nordeste não foi a região que teve a maioria dos casos de infecção pelo vírus da zika, mas concentrou 88,4% dos casos de mal formação de cérebro de bebês. O Sudeste teve 8,7% dos casos de microcefalia. A investigação começou por uma pista do passado, um caso da saúde pública ocorrido em 1996 conhecido como "Tragédia da Hemodiálise", que deixou 60 mortos em Caruaru, no Agreste pernambucano. 'Tragédia da Hemodiálise' que deixou quase 60 mortos completou 20 anos em 2016 Processo de tratamendo da água passou a ser mais rigoroso após Tragédia da Hemodiálise Reprodução/ TV Asa Branca No total, 126 pacientes de hemodiálise do Instituto de Doenças Renais de Caruaru começaram a passar muito mal depois do tratamento. O pedreiro José Francisco Borges foi um dos mais de 60 mortos, pacientes envenenados por uma toxina presente na água usada na hemodiálise. "Ele fazia hemodiálise, saiu de casa bem e voltou cego", disse a aposentada Cícera Maria dos Santos. Na época, o Governo de Pernambuco formou uma equipe para investigar o problema e chamou o biólogo Renato Molica. Atualmente, o especialista dá aulas na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), campus Garanhuns. De acordo com o biólogo, a água usada na hemodiálise estava contaminada por toxinas produzidas por cianobactérias, um tipo de alga comum em reservatórios de água. "Não é exclusividade do Brasil, tem cianobactérias no mundo inteiro. Agora elas aparecem mais nos locais onde tem um tratamento de esgoto, porque o esgoto é rico em nutrientes e esses nutrientes funcionam como fertilizantes", disse o especialista. A lembrança do que uma toxina provocou nos pacientes da hemodiálise fez Renato Molica pensar que a água contaminada pode ter piorado as consequências da zika em bebês cujas mães tiveram a doença. A suspeita foi testada em um laboratório do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Neste caso, a toxina analisada foi a saxitoxina, que também é produzida por cianobactérias. Estudo foi realizado com a saxitoxina TV Globo/Reprodução Cobaias grávidas foram infectadas com o vírus da zika, algumas fêmeas também tomaram água com uma quantidade de toxina 200 vezes menor do que o considerado aceitável pelo Ministério da Saúde. Em todos os casos, os filhotes nascidos mostraram problemas de mal formação, mas as fêmeas que tomaram a água contaminada tiveram crias com casos muito mais graves de microcefalia. "A gente mostrou que essas toxinas facilitam, por algum motivo que a gente não entende ainda, a chegada do zika até o cérebro", destacou a professora da UFRJ, Patrícia Garcez. A equipe do biólogo Stevens Rehen, do Instituto D'Or e da UFRJ, usou células da pele para criar minicérebros, que são aglomerados de células nervosas humanas. Esses organoides contêm até seis milhões de neurônios. "O que a gente observou foi que no caso em que havia os dois fatores infectando, contaminando o tecido cerebral humano, a quantidade de morte celular, que é um indicador da toxidade do vírus, era muito maior. O que acontece é o seguinte: você tem uma população sensível, sucetível, que tem como única fonte de água uma água muito rica em microalgas e cianobactérias", ressaltou Stevens. A epidemia de zika de 2016 coincidiu com a maior seca que atingiu o Nordeste nos últimos 100 anos. Com isso, a água nos reservatórios nordestinos diminuiu. A pouca água nas barragens resultou em uma maior concentração de toxinas. Com barragem seca, moradores perdem safras e recorrem a cisternas Barragem de Jucazinho segue em colapso desde setembro de 2016 Divulgação/Compesa Segundo Renato Molica, a presença de cianobactérias nos reservatórios de água do Nordeste é comum por causa de problemas causados pela falta de saneamento. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, na região apenas 26,87% da população tem coleta de esgoto. Por isso, Renato acredita que a solução seja rever os limites da segurança da toxina na água estabelecidos pelo Ministério da Saúde. "O que era seguro para consumo da água hoje em dia potencializa a ação de um vírus", Renato Molica. "É isso o que a nossa ciência está propondo: uma reflexão sobre os níveis considerados seguros e aceitáveis de contaminantes associados a cianobactérias na água", pontuou Stevens Rehen. A Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), responsável pelo tratamento da água no estado, diz que segue os padrões de qualidade estabelecidos pelo Ministério da Saúde e que desde o caso da hemodiálise fornece água à população dentro dos limites exigidos de toxinas. O Ministério da Saúde afirma que o resultado da pesquisa com camundongos não pode ser relacionado a efeitos em humanos. E classificou a quantidade de toxinas aplicadas nas cobaias como "extremamente altas". "Esse é um estudo longo, que vai demandar uma discussão ampla com outros setores, principalmente com a Anvisa. Esse é o início de uma caminhada para a gente aumentar a segurança, a saúde das pessoas dessas regiões", finalizou Flávio Alves Lara, que é pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz.

Fonte: Globo.com
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